Luís Severo

by Luís Severo

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about

Este disco foi composto e gravado em Alvalade, estúdio para o qual me mudei no princípio de 2016. Para a produção, som e arranjos trabalhei em conjunto com o Diogo Rodrigues e o Manuel Palha. Os três tocámos a maioria dos instrumentos. O Francisco Ferreira fez alguns arranjos de teclas e o trabalho gráfico - as fotografias são do Francisco Aguiar e da Raquel Rodrigues. A mistura é minha, com auxílio do Diogo e do Eduardo Vinhas. A masterização é do Eduardo Vinhas, no Ponéi Dourado.

Convidados:
Teresa Castro, Bia Diniz e Primeira Dama- coros
Tomás Wallenstein - violinos
Violeta Azevedo - flautas
Salvador Seabra - percussões

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Era o início de 2016 e eu andava na estrada a tocar o Cara d’Anjo. Já meio saturado daquelas canções, sabia que queria aproveitar o momento e escrever já outro disco. Desta vez, um disco mais solitário, onde a solidão no processo me proporcionaria uma liberdade que nunca tivera outrora. Quis romper com o método de escrever canções que tinha até então, método que me parecia demasiado saturado em mim próprio. Ao piano e sem pressa, explorei e repeti todas as melodias mais naturais que por mim passavam. Muitas delas estavam aos anos na minha cabeça e ouvidos, à espera de uma canção que lhes desse uma vida.

Já sabia que o Diogo Rodrigues iria gravar o disco comigo. Ele era já carta certa nos meus concertos ao vivo, e anfitrião de Alvalade. Sentia que faltava outra pessoa para nos ajudar, trazendo ideias novas, e rompendo as demasiadas rotinas que a minha dupla com o Diogo já deveria ter. Lembrei-me do Manuel Palha, que me impressionou bastante durante os ensaios da primeira Festa Moderna. O Manuel era completamente diferente de mim no método, no conhecimento, na procura e no gosto. Um músico fora de série, com a sensibilidade certa para me corrigir, sem me estragar. Os três fomos fluindo nos arranjos e produção, até que pontualmente chamámos outros amigos. O Francisco Ferreira acabou por gravar mais teclados do que alguma vez esperámos, contribuindo fortemente para a massa de texturas do disco. O Tomás Wallenstein tocou violinos e apareceu nas alturas certas para desbloquear impasses. A Violeta Azevedo gravou flautas e o Salvador percussões. No fim veio o coro, formado pela Teresa Castro, a Bia Diniz e o Manuel Lourenço. Estes três compinchas foram incansáveis e acrescentaram um lado bem orgânico ao disco.

Ofereço este disco à Raquel, que esteve ao meu lado durante este processo intenso e demorado. Agradeço aos meus pais, à minha avó, ao meu irmão, restante família, e, claro, aos grandes amigos Ró, Coelho, Sambado, Sobral, Quadros, Domingos, Lucía, Pedro Duarte, Zé Cardoso e toda a malta da Gentle Records, toda a malta da Maternidade, Cuca Monga, velhos amigos da Cafetra e seus afluentes da Interpress, e também aos traquinas dos Ganso. Um obrigado final, e redobrado, a todos os que participaram!

credits

released March 10, 2017

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Luís Severo Lisboa, Portugal

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Track Name: Amor e Verdade
cantei ao vento norte
para a avalanche te dar direcção
tu que falas de sorte, agora
que já te falta coração
deixaste a mocidade à espera
fumo a desaparecer
e só voltou a primavera
pra trabalhar até morrer
canta voz canta
dá-me uma esperança nesta cidade
se o medo já se alevanta
canta de amor e verdade

lisboa chora agora
não há filho teu que não te venda
fazem de ti boneca, à espera
que no fim ainda tenhas remenda
perdeste a graça a ver caminho
passou-te a carroagem
não fosse o olhar do menino
Pronto a seguir tua viagem
gastavas a flor do tempo
na nossa velha maldade
irónico o teu lamento
que já não presta nessa idade

fui moço já sou homem
deu tédio para aprender
vesti pior cantei pior foi
e agora não queiras saber
se este amor é que me dá fé
se é verdade ou não é
sem comparar já se alavanta
e a cantar morrer de pé, vai e
canta voz canta
dá-me uma esperança nesta cidade
se o medo já se alevanta
canta de amor e verdade
se me foge o pé à dança
fanço uma trança no teu cabelo
amor, és penha de frança
isso não dá para parecê-lo
Track Name: Planície (tudo igual)
eu e tu na malandragem
na viagem sempre a recomeçar
meio mundo à nossa imagem
dou meia volta se perco o meu lugar

de manhã o espelho aperta, sou amor
talvez do amor que me quiser
paixão que nem liberta
só pega e desarruma sem doer
que és bem melhor não nego
eu não te dei sossego ficou tanto por dizer

a tempestade lá ao longe
um capricho meu
até me esqueço desse mal
quando atento em tudo o que me mostras
e sem te dar respostas
logo fica tudo igual

no portugal lá do oeste
quantas vivendas fizeram uma cidade
esplanada bola frio agreste
só o teu corpo lhe dá identidade

privilégio é ser homem na batota
na teima desta contradição
dás birra e até risota
se não me vês em tua posição
mas vai-te logo o fel
se vês que à minha pele também dói essa lição

a tempestade já vai longe
e foi capricho meu
amor eu esqueço todo o mal
quando atento em tudo o que me mostras
e sem te dar respostas
logo fica tudo igual

alameda renda paga vida longa
o mês que acaba é bom sinal
é tiro à queima roupa
na prancha a mudar o vendaval
com o passar dos anos
cruzamos oceanos e deixamos tudo igual
Track Name: Escola
noite de insónia pesadelos paranóia
toca o relógio acordo pra fingir que tou bem
do primeiro beijo ao frio de Santa Apolónia
a espera do combóio foram braços de mãe

é tenra a cabeça cada vez mais esperta
sem coisas de rapazes a que nunca me dei
fui à escola aprender a estar sempre alerta
e a não confiar em ninguém

meu amor deixa uma porta aborta
não vá peder o chão
vem comigo à descoberta
e se perder o chão
volta ao deserto
para andar pelo deserto
com o mesmo vento na cara para o gelo do meu coração

nos passos em volta para descer os bons dias
sem más companhias para apanhar a urbana
meu corpo indefeso, tanta perna no shopping
boca de novo rico para fechar a pestana

dos filhos marados, dos divórcios passados
dos dois mil enterrados na saudade que aperta
da escola que é a melhor parte da vida
mas só porque a vida é mesmo uma merda

meu amor deixa uma porta aborta
não vá peder o chão
vem comigo à descoberta
e se perder o chão
volta ao deserto
para andar pelo deserto
com o mesmo vento na cara para o gelo do meu coração
Track Name: Meu Amor
naquela noite em Janeiro
andava louco para te conhecer
não esperava que me desses um teu beijo
e o tempo todo que ele me pôs a tremer
andámos pela chuva a cair
pelo cheiro da roupa a revelar
e a ver o castelo
tantos beijos nervosos a convidar-me subir tua escada
sem saber do calor
que é flutuar de mão dada
enlaçado com o meu amor
amor que me traz
carinhos que me deixam em flor
suspiros de paz do meu amor

se me fala verdade
e até de longe me sabe de cor
sabe até da vaidade
que me vale ser o seu amor
trouxe-me um arco íris para rever
e um baloiço para me acostumar
e até lábios grossos ele me deu
para lhe dar beijinhos como ele me dá
como peixe na água
hei-de encontrar nova cor
nas coisas que ele me fala
nos olhos do meu amor
vou-me acostumar
a tudo o que já mudou
ao bem que me faz o meu amor

o meu amor é o meu querer
o meu amigo para me lembrar
que a vida é curta para remoer
que o escuro não me pode afectar
que o dia já nasceu para acordar como peixe na água
leve e tão sonhador
a flutuar de mão dada
enlaçado com o meu amor
amor que me traz
carinhos que me deixam em flor
suspiros de paz do meu amor
Track Name: Cabeça de Vento
cabeça de vento
pelos raios de sol
abanada pelo Verão
tens luz a mais em corpo mole
cansa mais que a escuridão

mas eu vou perder o sono tão depressa
se tentar dormir assim que anoiteça
por isso mais vale perder a cabeça
amor volta, vamos sair

que há sempre um lugar
onde parece que não passa o tempo
nos remédios trocados para arejar
tanta cabeça de vento

cabeça de vento
esperei-te a demora
a contar trocos para o café
para sair de casa mais um hora
mais outra a andar a pé

tem graça que a festa também aborreça
que lembre da vida que já não interessa
a soma dos dias a perder a cabeça
que leva metade de mim

oh mãe
tentei deixar de ser cabeça de vento
mas ir pela maré de ninguém
só me levou o alento
oh mãe
desculpa ser cabeça de vento
um dia hei-de ser alguém
hei-de arranjar sustento
Track Name: Boa Companhia
amor que mata dá-te mais liberdade
para te entregares sem medo da intimidade
olhar nos teus olhos, já te faltar vontade
faltar-te a loucura que te impõe a cidade
o tempo a passar
e o compromisso fardo para a gente carregar

ainda assusta pensar no homem
que um dia hei-de vir a ser
e que me possas largar da mão
se me der a conhecer
o dia que se repete
e se hoje não te dá alegria
dar-te um beijo e dizer-te, amor
és boa companhia

se o teu coração me achou banalidade
primeira impressão que passou a verdade
aquele amor de verão
que não morre com a idade
ciência ou passado que não dão claridade
não deixam em paz
o sonho que aos anos tu tentas esquecer (dizia)
que amor que mata dá-te mais liberdade
para te entregares sem medo da intimidade
ouvi a cantora para saber se é verdade
que a sede da boca morre com a tempestade
e sabes de cor essas coisas tão mais profundas que o amor

ainda custa a aceitar o homem
que um dia posso vir a ser
e que me possas largar da mão
se me der a conhecer
O dia que se repete
e se hoje não te dá alegria
dar-te um beijo e dizer-te, amor
és boa companhia
Track Name: Lamento
amor que foi já não volta
amor que foi já não é
mais vale ser cabeça tonta
e andar à solta pela maré

tuas pálpebras de sombra
pestanas tristes a tremer
na espuma do mar que te enrola
pões fermento ao anoitecer

vai voar
ai não percas nosso tempo
no ciúme que te cava a cova
a cara tão nova
um novo lamento

amor que foi já não volta
de que vale tentar entender?
se amor não se esquece a pensar
que amanhã se há-de esquecer

tuas fotos tuas roupas
os teus fãs ali à espera
se algum te deu um devaneio
dá-lhe o cheiro dessa Primavera

vai voar
ai não percas tanto tempo
no ciúme que te cava a cova
a cara tão nova
um novo lamento

enquanto te vestes ao espelho
promete que desta não vais mentir
põe o perfume e o batom vermelho
aceita o presente o passado e o porvir
aquela casa pobre
aquela dor tão nobre
o que era bom que não se vai repetir
num lamento

vai voar
ai não percas tanto tempo
no ciúme que te cava a cova
a cara tão nova
Track Name: Olho de Lince
eu vinha de um lugar onde nada se parecia
com o teu passo calmo de Alvalade ao fim do dia
tentavas explicar mas poucas vezes te ouvia
vivia para sonhar a minha própria mania

mas lá me apaixonei pelos teus jeitos de raposa
iludido com a cidade começaste a fazer troça
eu quase com dezoito a respirar extasiado
só queria absorver o mundo contigo ao lado

corremos Portugal no Verão
e em Setembro não quis dar-te razão
dizias que é bom ter olho de lince
não vá a quimera morrer nessa contenda
não feches teu olho de lince
isto aqui é Lisboa cada qual que se defenda

fui para a tua faculdade e ficamos mais parecidos
se soltava uma farpa era mel para os teus ouvidos
vá lá não sejas prato para os tontos dos teus amigos
dizias-me em segredo com os teus olhos decididos

que à mesa do café tu só tens de ter certezas
se não tens não faz mal ou imitas ou inventas
com o teu ar natural quem dirá que não tens norte
para ti banalidade é sempre palavra forte

foi-se aproximando outro Verão
e aos poucos já te ia dando razão
dizias que é bom ter olho de lince
não vá a quimera morrer nesta contenda
não feches teu olho de lince
isto aqui é Lisboa cada qual que se defenda

mas quando me trocaste realmente aceitei
que é melhor andar à toa sem me olhar a ninguém
bati com a cabeça uns três anos caídos
até que um novo amor me devolveu os sentidos
e hoje longe do coração
eu só te lembro para lembrar esta lição
que é bom ter olho de lince
não vá a quimera morrer nesta contenda
não feches teu olho de lince
isto aqui é Lisboa cada qual que se defenda